Sintomáticas retóricas em torno do julgamento do mensalão
Elson Rezende de Mello
6 de outubro de 2012

Nesses tempos de julgamento do mensalão estão vindo à tona posições e retóricas políticas sintomáticas. Do que vem das bandas de petistas e achegados quase que não vale a pena comentar. Quase. Porque o que vemos é a grita de sempre, rancorosa e superficial. Como antes quiseram debitar o mensalão a uma orquestração golpista que pretenderia apear Lula do poder, agora proclamam que o julgamento é golpe das “zelites”, com a grande imprensa e até o Supremo como parte da armação. Que pretenderiam acabar com um partido popular e com o legado do ex-metalúrgico, insistindo com o lenga-lenga vitimizador de que as “zelites” não teriam ainda engolido o sapo barbudo, um ex-operário na presidência da República, esquecendo-se o fato de que essas “zelites” não foram importunadas com Lula no poder e que só lucraram.

Está havendo um baque nas hostes de José Dirceu, que imaginavam que o Supremo ia ser engrupido com a retórica de caixa dois e que não haveria nos autos nada além disso a lhes incriminar (foram vítimas de suas próprias espertezas). Como os ministros refinaram seus instrumentos de análise e julgamento, sem sair do leito da lei e até da jurisprudência, num esforço para não deixar impunes crimes de colarinho branco, os ataques defensivos não se fizeram esperar, como se o julgamento viesse de um tribunal de exceção.

Faltam análises mais abrangentes, que realmente colocassem as coisas em seus devidos lugares, sem a partidarização a que estamos assistindo. Analistas de lastro realmente de esquerda parece que estão se cuidando, esperando a sujeira assentar no fundo do copo, para se pronunciarem.

Enquanto isso, é evidente, a direita e a imprensa tradicional tiram proveito da situação. A oposição nem tanto, já que teria o rabo preso, pois o valerioduto é engendro do PSDB mineiro, aperfeiçoado a nível federal quando o PT chegou lá.

Uma pretendida esquerda que se pronuncia o faz pelo viés dos seus interesses e sua falta de visão, concomitante com seu pragmatismo de considerar que o governo Lula e Dilma sejam de esquerda.

O leitmotiv de todas as análises e posições  de partidários e intelectuais achegados, não explicitado, é que os fins justificam os meios e que choramingar corrupção é coisa de direita. E dá-lhe golpe da direita, da oposição, todos mancomunados com o PIG e o Supremo, para acabar com um partido popular e a herança lulista. Sobre o que realmente está em jogo, poucas linhas, geralmente para minimizá-lo, apegando-se estritamente aos rótulos que foram dados para nomear mais facilmente o acontecido, como mensalão, compra de votos, para negá-los na lógica da nomeação dos fatos.

Assim, o mensalão, que podia ser um fato isolado das práticas de um partido que chegou ao poder, acaba enlameando todo o agrupamento político, pela inabilidade de seus partidários e acólitos, que em suas grosseiras, e por vezes grotescas, manifestações acabam levando a colar no partido o veredicto do julgamento. É que a soberba e a truculência não deixam ver mais além do que sente o fígado.

Em termos de país, este julgamento pode sim ser um divisor de águas. De qualquer maneira, desde já significa um passo a mais na consolidação da democracia no país, digam o contrário os áulicos dos que estão no banco dos réus e dos que mereciam estar.