O povo nas ruas reinvidica mudanças na estrutura social e política do país.

Informações e opiniões diversas sobre o Equador


Não deixem de dar um olhada na seção que recolhe algumas caricaturas que o dono do pedaço vem realizando esporadicamente e que foram publicadas em diversas publicações.


Gabo está em casa
Elson Rezende de Mello

O nosso cachorro Gabo está em casa, depois de nove dias perdido por Viçosa, nas Gerais. Escapuliu na quinta-feira, 12 de outubro, dia em que se comemora a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, sempre com muitos fogos de artifícios. Assustado que estava todo o dia com os fogos, fugiu em torno das seis horas da noite, quando perto do bairro em que vivemos, Inácio Martins, se realizou uma procissão. Ele foi mais sensível ao barulho que o outro cachorro que temos, Guri, um bitelão, que não esteve nem aí para os fogos.

E o pior é que minha esposa Araceli e eu não estávamos em casa nessa hora. Viajamos para Itaipava, Petrópolis, no começo da tarde, e tínhamos atrasado a viagem justamente para ficar com o bichim, ao meio dia, quando há uma concentração de fogos. E como não sou religioso, nem sabia que na tarde soltariam mais fogos, e menos ainda que perto haveria uma procissão.

Nosso bairro é bem retirado do centro, um pequeno vale, também chamado Grota dos Camilos, com matas coroando ainda os morros. O nosso herói fugiu primeiro arrebentando uma grade de um portãozinho interno, e na frente passou nas grades do portão, magrelo que é. Possivelmente, subiu o morro do lado de nossa casa e se embrenhou no mato, saindo em outro bairro, indo bem longe, até a Universidade Federal de Viçosa, onde trabalho e o encontramos.

No dia 12, quinta-feira, quando chegávamos a nosso destino, fomos avisados que o Gabo tinha desaparecido. Ficamos preocupados, mas imaginamos que voltaria em seguida. E nada, nem no outro dia voltou. E só pudemos regressar no sábado, chegando a casa em torno das onze da manhã, para começar a peregrinação da busca do Gabo. Quando a dica é que as primeiras 24 horas são cruciais para procurar um cachorro desaparecido ou fugido.

À PROCURA DE GABO
Viemos com a expectativa de encontrá-lo em casa, mas também com medo de que tivesse sido atropelado, morto ou ferido. Outra apreensão era que alguém o tivesse pego, encerrado em sua casa, ou mesmo levado para longe, como costuma acontecer.

Assim que chegamos, procuramos pelo bairro e redondeza, mas sem colar os cartazes pelo caminho, que só imprimimos na segunda-feira, de manhã. Na tarde desse sábado, jogamos a informação no Face, na minha página, na página de minha filha Ana e na página da Sovipa – Sociedade Viçosense de Proteção aos Animais, com os posts sendo bastante compartilhados. Posteriormente, nosso filho Paulo Antonio entrou no circuito de compartilhamento e irradiação da informação.

Já no sábado, fomos ao campus da UFV, que geralmente está cheio de cachorros abandonados e perdidos, onde conseguem comida e água aqui e ali.

No domingo, seguimos procurando no bairro, que é pequeno e só tem uma entrada e saída, fora dos morros. Um pouco pela redondeza, procuramos em lugares que ele já tinha passado comigo e possíveis rotas de fuga dele, no desespero.

Só a partir de segunda-feira, quando começamos a colar os cartazes por alguns lugares é que começamos a receber algumas indicações do paradeiro do Gabo, e todas davam em nada.

Colocamos também anúncios na rádio Montanhesa, de grande audiência na cidade, para serem veiculados na terça-feira.

Fomos ao hospital veterinário da UFV, para verificar se o cachorro não teria ingressado ferido, pelas mãos de uma boa alma, o que não aconteceu, aproveitando para deixar cartaz lá. Dias depois, voltamos lá mais de uma vez, por alguns indícios da presença do Gabo.

Deixamos poucos cartazes no centro da cidade, e também na universidade não foram muitos, mas colamos em local de muita afluência de estudantes, no assim chamado Bar do DCE.

MEIOS FUNDAMENTAIS
As informações no Face, com nossos números de celulares, foram fundamentais, para a circulação de informação e o contato conosco. No Whatsapp estivemos em tempo real em contato com nossos filhos, trocando ideias, dando-nos ânimos e nos consolando. Agora mesmo dá para repassar no aplicativo todos os passos que demos, as expectativas, as frustrações, as fotos.

Foram terríveis esses dias, de procuras infrutíferas todos os dias. E de ser atrapalhados, de perder o foco, porque havia muitos cachorros parecidos ao nosso querido vira-lata com alguma coisa de doberman . Íamos correndo a um lugar, com uma indicação da presença do Gabo, e topávamos com algum cachorro que só ligeiramente era parecido. Como foi o caso do anúncio na radio, que deu uma única resposta de alguém que estava com o cachorro, num bairro que não era muito longe do nosso. Lá ia eu correndo, para outra decepção. Mesmo que animado repetisse os anúncios no dia seguinte, quarta-feira, que desta vez não deu em nada.

E assim foram os dias, em que pese sempre termos algumas informações. Começávamos o dia até entusiasmados, mas, de noite em casa, cansados e tristes, constatávamos que regressávamos à estaca zero. Eu tinha a sensação de que sempre estávamos procurando o cachorro errado, o que nos tirava do foco e fazia perder tempo.

Cruzamos também com um casal, que coincidentemente mora perto de nós no bairro e também tinha perdido um cão dias antes. O cão deles, de raça e grande, talvez o único de sua raça na cidade, parecia mais fácil de encontrar. No entanto, mesmo assim chegaram a usar um drone, que descobriu e filmou o cachorro no quintal de alguém, em outro bairro, e eles o recuperaram na segunda-feira. Só vim a saber do uso do drone depois, e quis também contratar os serviços do profissional, mas fui postergando por não ter muita clareza onde usar; de qualquer modo, estava determinado a utilizar desse recurso na segunda-feira seguinte, o que não foi necessário porque nossa busca teve um final feliz antes.

Na quarta-feira fui ao hospital veterinário de outra universidade, Univiçosa, para checar se o bichim estava lá ferido e deixar cartaz. Não estava, claro.

Deixamos cartazes também em petshops.

Recebíamos informações que, reunidas, davam alguma coerência da presença dele no bairro Santo Antônio, um pouco distante do nosso. Fomos lá e na redondeza, colamos cartazes em postes e bares e vendas. Conversamos com as pessoas. Tinha gente que parecia que via demais, nos dava quase certeza de ter visto o bicho em determinado lugar, íamos lá e ninguém tinha visto. Umas viam demais, outras, de menos. E como o cachorro perdido ficava invisível!

Numa das minhas buscas, topei com um animal que seria bem parecido ao Gabo, foi o mais parecido que encontrei. Assim que vi, fiquei até emocionado, e fui verificar que tinha o rabo cortado e era fêmea!
E assim transcorreu nossa agonia diária. Eu me dediquei completamente a isso. Até brinquei com meus filhos que esse cachorro me quebrava, mas eu o encontraria, se estivesse vivo.

Os posts no Face foram bastante compartilhados, e fiz mais de um justamente para forçar uma atualização e mais gente ainda o compartilhasse. Citei amigos aqui de Viçosa no Face, para que compartilhassem. Um deles já foi bloqueado, deixou de ser amigo, por nem responder. Gente insensível assim não serve para ser meu amigo, mesmo no Face!

Trocava mensagem com minha filha, que vive em Curitiba, e ela dizia que sentia que o bichim estava bem, eu respondia que também sentia. Somos um pouco sensitivos, e cultivamos isso.

Neste azar enorme que foi a fuga do Gabo, houve alguma sorte aqui e ali, e mais azar também. Como gente que entrava em contato para dar informação, de ter visto o cachorro em algum lugar, bem depois, até no dia seguinte de ter visto!

PRIMEIROS INDÍCIOS CONCRETOS
Foi na quarta e quinta-feira que recebemos informação, via Whatsapp, da possível presença do Gabo na UFV. A de quarta, mensagem de áudio, falava de ter visto, na terça-feira de noite, cachorro parecido, não dava certeza, perto da nova fábrica de doce de leite da universidade, no caminho de saída para os lados de Coimbra, perto da Veterinária. Já a de quinta, mensagem de texto, falava da presença dele na entrada do departamento de Letra, só que no dia anterior. Mandei imagem de outro cachorro parecido, para confirmar se não era ele, a estudante escreveu que não e me enviou a imagem de uma cachorra sua que é a cara do Gabo, o que era um bom indício de que ela reconhecia o nosso cachorro. Foi a primeira indicação mais concreta do Gabo. Nessa quinta–feira, de noite, eu e Araceli fizemos mais ou menos um pente fino na UFV, e nada. No outro dia, também fiz e topei com três cachorros mais ou menos parecidos! E nada do Gabo, que, à luz do desfecho, creio que chegou à universidade na terça, e não me perguntem como chegou lá, por onde passou!

Estudantes compartilhavam nosso post “Procura-se”, dizendo para ajudar os donos que estavam desesperados procurando na UFV, e creio que era isso mesmo.

Enquanto isso, tínhamos mais informações que nos levavam para o bairro Santo Antônio, João Braz, imediações da Univiçosa, Silvestre.

E chega o sábado, o cansaço cresce, a tristeza também. Rodamos por Santo Antônio, bem alto pelos morros, na manhã do sábado. De tarde, programamos, talvez já tardiamente, refazer a rota de fuga do Gabo no bairro, subindo o morro e entrando no mato, para ver onde o bichim foi parar do outro lado.
Estávamos no alto do morro, no meio do mato, quando recebi, pelo Whatsapp, três fotos que eram do Gabo, reconheci de imediato, com a legenda de que fora visto na Veterinária naquele momento. E estávamos no meio do mato, sem carro à mão! Pedi à pessoa, uma estudante, que o retivesse, mas ela informou que já não estava mais lá. Voltamos no meio do mato, até errando o caminho, passando por cercas de arame farpado, baixando o morro escorregando, caindo. Pegamos o carro e rumamos para a universidade, para o caminho de entrada da Veterinária. Evidente que o cachorro não estava mais lá.

Primeira imagem de Gabo que permitiu encontrá-lo.

Quase íamos percorrer uma reta de entrada e saída na universidade por este lado, indo para o lado errado, mas, como era dia de sorte, passou um carro da vigilância, que paramos e lhes pedimos aos vigilantes que nos ajudassem, entregando-lhes um cartaz do “Procura-se”. O vigilante lembrou que tinha visto um cachorro parecido na sede da vigilância, onde ficam outros cachorros. Voltou lá e em seguida nos chamou para dizer que ele estava lá. Corremos. E era o Gabo! Ele assim que nos viu chegando e Araceli o chamando se enfiou no carro.

No final, encontrado o Gabo, tivemos um probleminha de ciúmes de seu amigo Guri, que estava com a gente no carro, que o estranhou. Tivemos que levar para casa primeiro o Gabo e depois o Guri. Mas depois se entenderam e estão numa boa.

Como todos nós.

Resumo da ópera e da agonia: Face e Whatsapp foram fundamentais mesmo, para comunicação, troca de informações, sensibilizar as pessoas e encontrar o cachorrinho. Os cartazes e os anúncios na rádio também; criaram um clima, para chamar a atenção para o cachorro perdido.

O maior problema foram os cachorros parecidos, que de alguma maneira nos tiraram de foco e a procurar em lugares em que ele não estava. Para terem uma ideia dessa situação, depois do Gabo em casa já recebemos cinco informações de que ele estaria em diversos lugares, num lugar até o teriam pego!

Outra coisa que ajudou foi a inteligência do meu bichim. Não sei como ele chegou na universidade, tão distante de onde moramos. Mas uma coisa eu sei, as trilhas, o andar no mato com meus cachorros, ajudaram. Ele também já conhecia a universidade, seu campus bonitamente ajardinado, já andei com ele por lá e também por suas matas. Gabo chegou na universidade e foi ficando, imagino que me procurasse também, lá tem os meus cheiros, e havia outros cachorros e possibilidade de alimento.

Foram dias de cão, sofremos muito, e Gabo também.