A esquerda, o silêncio e a religião
Eugênio Bucci
O Estado de S. Paulo, 27 de abril de 2017

“Na JEC, os assistentes apresentavam o Cristo como o macho, o forte, o homem, o cara que veio para fazer uma revolução, não uma revolução em termos políticos, mas de qualquer maneira uma revolução, pessoal, humana, de salvação. Isso continha uma mística tremendamente forte para nós. Essa era a religião que nós estávamos querendo. Isso teve um aspecto muito, muito positivo. (...) Foi com esse embalo místico que chegamos à AP: temos uma missão, somos uma geração com uma missão salvadora.” Herbert José de Souza, o Betinho, no primeiro volume da obra coletiva Memórias do Exílio, publicada em 1976.

 

Por que tantos militantes de esquerda têm tanta dificuldade em criticar a figura de Lula? De onde vem a barreira intelectual? Por que a idolatria, embora cansada, não arreda pé? Ou, quem sabe, o que existe aí é dependência psíquica? Para encarar essas perguntas, uma esfinge do nosso tempo, começo invocando o passado. Começo pelo testemunho de Betinho, registrado no texto De Muitos Caminhos, que está no primeiro volume de uma coletânea organizada por Pedro Celso Uchôa Cavalcanti e Jovelino Ramos, sob a orientação de Paulo Freire, Abdias do Nascimento e Nelson Werneck Sodré. Publicada originalmente em Portugal, em 1976, a obra foi também impressa em São Paulo, pela Editora e Livraria Livramento Ltda., em 1978. É um documento precioso e, em muitos aspectos, incrivelmente revelador.

No caso de Betinho, é revelador o nexo que ele aponta entre a ação política e o cristianismo. A Ação Popular (AP), nascida da Juventude Estudantil Católica (JEC), trazia em seu código genético inspirações católicas e marxistas. Foi criada em 1962, teve peso no combate contra a ditadura militar e, nos anos 70, seria absorvida pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), que não era chegado a sacristias. Por aí – embora não tenha sido só por aí –, ramificações do cristianismo acabaram por dar às mãos ao materialismo raso dos que adoravam Joseph Stalin, também chamado de “guia genial dos povos” ou algo por aí.

Também para o Partido dos Trabalhadores, o PT, gerado nas greves operárias do ABC paulista do final da década de 70, afluíram correntes católicas de esquerda, incluindo setores das célebres comunidades eclesiais de base. Além dos cristãos, acorreram para a sigla operária fileiras stalinistas e trotskistas (o Brasil é o país da mestiçagem dos contrários – sobretudo da mestiçagem religiosa). Por todos esses “muitos caminhos”, no dizer de Betinho, as ideologias se travestiam de profissão de fé e vice-versa.

Por certo, essa fusão – ou confusão – de fé religiosa e militância política não é marca distintiva dos socialistas. A direita também tem disso. Ouvindo Donald Trump falar, a gente tem a sensação de estar diante de um fundamentalista ultraortodoxo que não se manifesta como agente político, mas como pregador disposto a combater os infiéis com a mais sacrossanta violência.

A opinião, quando elevada a fator de coesão de um grupo, de uma turma, de um partido (como de uma igreja), confere à ação coletiva um aspecto de movimento religioso. Em toda parte é assim. Em todas as ideologias. Tanto que Yuval Noah Harari, autor do best-seller mundial Homo Deus (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), diz que até mesmo o humanismo é uma religião, assim como o socialismo e o liberalismo. Quanto a isso, portanto, nada de novo sob o Sol.

Mas o tema deste artigo não é a religiosidade na política em geral. Só o que pretendo discutir aqui é a possibilidade de uma relação entre as perguntas que estão lá no primeiro parágrafo – por que Lula parece ser esse mito intocável aos olhos de seus seguidores? – e uma religiosidade específica, menos abrangente e mais localizada: a religiosidade presente nessa política de silêncios obsequiosos do PT e de seus grupos satélites.

Não que Lula seja a reencarnação do “Cristo forte” de que falava Betinho. Dizer isso seria fazer piada e, ainda que não sejam poucos os que cederam ao fascínio de ver no carisma de Lula a imagem-síntese de uma “revolução pacífica” que estaria em marcha, não é o caso de fazer piada. Falando sério, a dificuldade de núcleos de esquerda de fazer a crítica de determinadas condutas de Lula não vem de uma visão primitiva de que ele seja santo, mas do medo mudo de que tratá-lo como um simples ser humano (“um brasileiro igualzinho a você”, lembra?) ponha a perder toda a “mística” que se ergueu dele.

Aliás, a desculpa “tática” que alguns dão tem que ver com isso. Criticar Lula seria fazer o jogo da direita e enfraqueceria a causa, dizem eles. Acontece que a desculpa “tática” é, também ela, religiosa: qualquer seita reage assim para proteger seu profeta, o que não deixa de ser compreensível. A dimensão divina do profeta funciona como o alicerce das crenças: se ela for abalada, toda a catedral virá abaixo.

O que é particularmente triste é ver o PT se resignando à condição de seita e desistindo da crítica política. É triste porque, embora sempre exista um pouco de religiosidade na ação política, uma agremiação de esquerda que se contenta em se comportar como seita abandona a própria identidade da esquerda, baseada na contestação.

A própria ideia moderna de esquerda é produto da contestação intelectual, é produto da potência crítica dos que pensaram contra a ordem. Logo, uma esquerda sem crítica não é esquerda. É só uma igrejinha. No diminutivo.

É interessante notar, hoje, que a Igreja Católica tem mais facilidade em discutir o dogma da “infalibilidade papal” do que o PT em pôr em pauta eventuais “erros” – falar em “crimes” seria pedir demais – cometidos pelo seu líder maior. O Vaticano até convive com a ideia de um papa que erra. O PT, parece que não.

Em tempo, Betinho fez a crítica do seu passado e se reinventou. O PT e seus apoiadores aflitos (ou envergonhados) insistem no caminho oposto. Por quantos séculos mais?