O que fazer para revitalizar a esquerda
Hamilton Octavio de Souza
Correio da Cidadania, 27 de janeiro de 2017

Uma tarefa bastante delicada no Brasil atual é identificar e organizar qual deve ser a atuação política da esquerda sem ingressar no jogo dos grupos que se engalfinham na disputa do aparelho de Estado para gerenciar versões do capitalismo. E sem cair no fla-flu das torcidas fanatizadas que embaralham emocionalmente o leque ideológico por voluntarismo e oportunismo da forma mais irresponsável e inconsequente. A esquerda precisa urgentemente desbaratar as barreiras do caos, redefinir caminhos e reformatar o seu papel de força política presente e influente na vida nacional. 

A opção mecânica por este ou aquele lado das várias questões em conflito não tem contribuído em nada para tirar a esquerda do pântano político. A trajetória dessa fragilização pode ser remetida a 1989, mas é certo que a situação desandou de vez a partir de junho de 2013. É preciso considerar também a conjuntura internacional, as manobras do capitalismo após a crise econômica de 2008, as explosões migratórias, as ondas conservadoras e de direita, a reorganização mundial da economia, mas, especificamente, o fundamental é apurar como vitalizar a fragmentada esquerda brasileira.

Só uma força política de esquerda organizada e atuante pode se contrapor às barbáries produzidas pelo neoliberalismo. Só uma força política de esquerda integrada e apoiada pela maioria do povo – notadamente pelos trabalhadores das mais variadas atividades profissionais – pode construir caminho seguro para uma sociedade justa, igualitária, livre e democrática para todos. Só uma força política de esquerda com credibilidade ética e legitimidade popular pode combater de forma eficiente e duradoura as práticas da corrupção e os desmandos praticados com os recursos públicos.

É imprescindível reconhecer os graves problemas da desigualdade reinante no país; a urgência de mudanças estruturais no sistema político e no modelo de desenvolvimento econômico e social; a gritante necessidade de se assegurar os direitos fundamentais (trabalho, moradia, saúde, educação, cultura, lazer) para todos; a imediata inversão dos valores de uma sociedade excludente (individualismo, concentração, ganância, brutalidade) por valores de uma sociedade solidária (coletividade, distribuição, generosidade e civilidade). É igualmente imperioso que os trabalhadores entrem na luta pra valer.

A tomada de consciência exige percepção dos fatores que concorreram para a fragilização da esquerda ao longo do processo histórico e ao mesmo tempo vontade para reinterpretar fatos, discursos e análises contaminados pelos equívocos e desvios nas práticas da esquerda. O objetivo é alimentar o diálogo e enriquecer o ambiente propício ao fortalecimento da esquerda, não apenas de seu arsenal político e programático como também de sua organização enquanto força real para atuação concreta na sociedade, transformar a realidade e combater as mazelas geradas pelo capital.

Meória e aprendizado

Temos sido enredados há muitos anos por falsos dilemas, os quais nos afastam de posturas e agendas compatíveis e consequentes com o campo próprio da esquerda. A partir da derrota de Lula na eleição presidencial de 1989, o PT – e especialmente o lulismo – caminhou para a aproximação com as forças, propostas e políticas do centro liberal e da direita neoliberal, realizando um verdadeiro massacre na esquerda do partido, seja sufocando algumas lideranças e correntes, seja com o expurgo de grupos e pessoas que ousaram criticar e se opor ao caudilhismo semelhante ao dos partidos tradicionais da direita.

Vale lembrar que não toda, mas boa parte da esquerda organizada existente hoje nasceu de expurgos realizados pelo lulismo dentro do PT, como o PSTU e o PSOL. Sem contar os milhares de petistas de esquerda que deixaram o partido decepcionados com os rumos e as práticas adotadas pelo lulismo, se abrigaram em alguma outra legenda ou simplesmente abdicaram de nova vida partidária. Muitos militantes aguerridos e qualificados foram violentamente tolhidos em seus sonhos e ideais simplesmente porque não aceitaram o mandonismo e os desvios políticos e éticos da cúpula do lulismo.

As manifestações de 2013, a começar das lutas do Movimento Passe Livre (MPL), despertaram diferentes segmentos da sociedade – desde os grupos black blocs, anarquistas, socialistas até as acomodadas classes médias – para a força e a influência das ruas no jogo político institucional e, o mais inovador e transformador, sem a tutela do PT, do lulismo e do governo federal. Ao tentar restabelecer o controle das ruas e ao negar respostas efetivas às demandas dos protestos, a hegemonia petista ficou desmoralizada. Vale lembrar que a Dilma se reelegeu em 2014 com o apoio de apenas 38% dos eleitores, sendo que 62% dos eleitores não assumiram qualquer compromisso com a candidata do lulismo.

Apesar de todas as provas de que o PT é dominado pelo lulismo e que o lulismo não passa de uma geleia geral fisiológica, que sempre atuou muito mais a favor da direita e da burguesia do que a favor da esquerda e dos trabalhadores, alguns setores da esquerda ainda se submetem aos apelos da cúpula do lulismo para blindá-lo dos inúmeros crimes praticados contra os segmentos sociais mais necessitados de serviços e recursos públicos, sem contar que tais setores são usados repetidamente como massa de manobra nos momentos em que o próprio lulismo precisa mostrar força para se inserir no jogo da burguesia.

Os falsos dilemas nos afastam sempre das posturas e das propostas que devem nortear a esquerda. No momento, forças hegemônicas pautam para a sociedade duas opções: uma, apoiar a estabilização política do governo Temer, o que significa fortalecer o ajuste econômico neoliberal conforme as regras do Consenso de Washington, que prevê a redução do papel do Estado e a privatização de quase tudo para a exploração do mercado, com consequências danosas aos direitos fundamentais da população (educação, saúde, transporte, moradia etc.); e outra, apostar na desestabilização política do governo Temer, com o agravamento das crises política, econômica, social e institucional, de tal maneira que o presidente possa ser substituído sob a batuta do Congresso Nacional, com opção de outro governo tão ou mais comprometido com as propostas neoliberais.

Não faz o menor sentido a esquerda embarcar na aleatória disputa entre facções da burguesia, divididas entre o apoio ao Temer e a busca de uma alternativa ao Temer. Também não faz o menor sentido entrar no jogo do lulismo, que encena agora o papel de oposição, faz suposta campanha para antecipar as eleições tão somente para dificultar eventual condenação de Lula nos vários processos em que é réu. Embarcar no estertor do lulismo, agora desvendado e degradado política e eticamente, seria jogar mais uma pá de cal na esquerda e retardar ainda mais a sua inserção nas classes trabalhadoras. A organização e o fortalecimento da esquerda podem passar pelo processo eleitoral, mas não podem se esgotar nas eleições. Diferentemente do lulismo, que tem projeto pessoal de poder, a esquerda deve visar, fundamentalmente, o projeto de transformação real e estrutural da sociedade.

Foco e seletividade

A esquerda está sendo estimulada a entrar no processo sucessório de maneira atabalhoada, mais uma vez, antes mesmo de qualquer reflexão mais aprofundada sobre a sua própria conformação política, ideológica e programática; antes mesmo de uma boa análise crítica sobre os governos do PT, sobre o papel do lulismo e a relação do petismo com a conjuntura de crise no seio da esquerda e nos movimentos sociais populares, sindicais, da juventude e dos trabalhadores. Como pensar na liquidação do atual governo, herança direta do lulismo, sem a urgente e essencial recomposição de uma força realmente livre da política de conciliação de classes que imobilizou a esquerda em tantos anos de neoliberalismo?

A referência da esquerda não pode ser o que levou o país ao desastre econômico e social, que transformou a esperança popular em pesadelo para os trabalhadores, que levou desespero aos pobres e desalento aos jovens. A referência da esquerda não pode ser quem adota e pratica a despolitização do povo e a degeneração da ética pública. A referência da esquerda não pode ser jamais o que despertou, alimentou e fortaleceu de 2002 a 2016 os setores mais conservadores e de direita da sociedade brasileira. Afinal, quem bancou a presença de Temer nas chapas de 2010 e 2014 e as alianças com PMDB, PP, PRB, PTB, PSD e alimentou tantos focos do reacionarismo?

O que fragiliza a esquerda não é a existência da direita e do conservadorismo na sociedade brasileira. O que fragiliza a esquerda é ser confundida com a geleia geral do lulismo, pagar por erros e desvios dos governos petistas e ser complacente com esse espólio abominável despejado nas costas dos trabalhadores e do povo. Precisamos retomar a iniciativa da luta política sem reproduzir erros do passado recente.

Precisamos apostar no futuro com uma frente popular de esquerda capaz de agregar partidos, movimentos sociais e todos que queiram construir outro rumo para o Brasil. Só assim teremos novos tempos de esperança.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.