É preciso ter controle sobre notícias falsas na internet, afirma estudioso
Diogo Bercito
Folha de S, Paulo, 22 de dezembro de 2016

Mulher lê uma capa falsa do jornal americano Boston Globe dizendo que Trump vai deportar imigrantes

O italiano Luciano Floridi, professor na Universidade de Oxford, tem trabalhado na última década no projeto que passou a chamar de sua "filosofia da internet": uma abordagem ética para os debates on-line.  Os comentários na internet deveriam, afirma, ser como os parques públicos: assim como não podemos levar os nossos cachorros a alguns gramados, tampouco deveríamos poder dizer o que bem entendemos em uma notícia que lemos na rede.

Tampouco deveria ser possível, ou permitido, circular notícias falsas na internet —como aquelas que marcaram 2016, especialmente na campanha eleitoral nos EUA.

"A questão é que, no contexto da democracia liberal, as pessoas pensam que têm o direito de dizer o que querem. Como no parque ou no trânsito, isso não é verdade", diz em entrevista à Folha.

*

Folha - As notícias falsas são um problema recente?

Luciano Floridi - Não. Elas existem desde que começamos a escrever. Mas, se você observar a história da imprensa e da comunicação de massa, sempre houve muito controle. Não necessariamente qualidade, e sim filtros. Hoje há meios sem controle. Mais pessoas têm a oportunidade de causar estrago, e há interesse financeiro em sites de notícias falsas.

As notícias falsas realmente podem ter influenciado na eleição de Donald Trump e na decisão pelo "brexit" no Reino Unido?

O impacto foi significativo. A diferença entre ambos os lados não era tão grande e, se as mídias sociais influenciaram em 10% dos votos, já pode ter sido determinante. As notícias falsas assustaram as pessoas e motivaram o voto.

O risco das notícias falsas é especialmente grande agora, em comparação com o passado?

Esse é um momento doloroso de anarquia em que qualquer pessoa pode dizer qualquer coisa sem sofrer consequências diretas. No futuro, o controle de qualidade terá mais papel. Não de censura. Mas há regras nos parques públicos –poder levar animais ou não–, e a mídia social tem que ser igual. Precisamos ter uma troca de ideias de maneira civilizada, com bom comportamento. Neste momento, ainda estamos no meio do processo, aprendendo as lições para ter uma internet melhor.

O que o senhor pensa sobre os comentários nas notícias on-line?

No contexto da democracia liberal, as pessoas pensam que têm o direito de dizer o que querem. Como no parque ou no trânsito, isso não é verdade. As pessoas têm o direito é de serem respeitadas.

Li os comentários no meu artigo publicado pelo "The Guardian" e são, no mínimo, pouco educados. Se eu fosse o jornal, não permitiria.

Como pode haver educação na internet?

Você não pode dizer o que pensa na Wikipédia. Há muita liberdade, mas há regras restritas também.

O que fazer, por outro lado, com as notícias falsas?

Um dia elas poderiam se tornar ilegais. Nos EUA, hoje as leis são de faroeste. Há maneiras de sermos mais civilizados. Precisamos olhar mais para a Europa, onde não há esse nível de desinformação. É preciso haver regulação.

O senhor trabalha há anos em uma "filosofia da informação". Os eventos recentes influenciaram seu trabalho?

Eles confirmaram a minha tese de que precisamos de uma filosofia. É insano deixarmos isso nas mãos do mercado. É irresponsável.

Meu próximo livro será sobre a política da informação. Espero provar que temos evidências de que esse desastre precisa ser interrompido, para não termos outro episódio como Trump.