O povo nas ruas reinvidica mudanças na estrutura social e política do país.

Informações e opiniões diversas sobre o Equador


Não deixem de dar um olhada na seção que recolhe algumas caricaturas que o dono do pedaço vem realizando esporadicamente e que foram publicadas em diversas publicações.


RECONSTRUIR A ESQUERDA
Um balanço crítico da experiência histórica e algumas ideias para o futuro
Ruy Fausto
Revista Piauí, edição 121 - Outubro de 2016

Ilustração de Roberto Negreiros

Reconstruir a esquerda? Ainda recentemente, um bom autor francês de esquerda – Jacques Rancière – se referia de maneira levemente irônica ao eterno trabalho dos “reconstrutores”. E, no entanto, é o que cabe fazer. Há uma situação de crise no nosso campo político. Vale dizer, para usar uma metáfora, que a condição atual da esquerda é a de um homem perdido na floresta: é preciso encontrar uma saída. Mas não partimos de um marco zero.

Para começo de conversa, é preciso privilegiar a crítica dos nossos erros e das nossas ilusões. Mais do que por alguma indefinição quanto aos seus objetivos, a esquerda paga um preço muito alto pelas figuras aberrantes que se apresentaram e continuam a se apresentar como encarnações dela. Desde há mais ou menos um século, o campo político que privilegia a defesa de maior justiça social foi acometido de um certo número de doenças que, se não chegaram a matá-lo, tampouco foram plenamente curadas. Apesar de tudo o que já se escreveu sobre essas formas aberrantes, há que voltar a elas de maneira sistemática. Sem esse trabalho, não escaparemos dos impasses atuais, por mais que se possa encontrar uma saída provisória – e sempre instável – para esta ou aquela situação.

Para começo de conversa, é preciso privilegiar a crítica dos nossos erros e das nossas ilusões. Mais do que por alguma indefinição quanto aos seus objetivos, a esquerda paga um preço muito alto pelas figuras aberrantes que se apresentaram e continuam a se apresentar como encarnações dela. Desde há mais ou menos um século, o campo político que privilegia a defesa de maior justiça social foi acometido de um certo número de doenças que, se não chegaram a matá-lo, tampouco foram plenamente curadas. Apesar de tudo o que já se escreveu sobre essas formas aberrantes, há que voltar a elas de maneira sistemática. Sem esse trabalho, não escaparemos dos impasses atuais, por mais que se possa encontrar uma saída provisória – e sempre instável – para esta ou aquela situação.

A primeira e mais importante forma aberrante que a esquerda assumiu no último século foi a do totalitarismo. Por isso mesmo muitas vezes se afirmou que a esquerda levou um enorme baque, se não o baque definitivo, com o fim do chamado socialismo de caserna – cuja história terminou, pelo menos em termos simbólicos, com a queda do Muro de Berlim em 1989. Ou, de forma mais radical, se disse e afirmou que foi justamente a experiência terrível do totalitarismo – no caso, do totalitarismo de esquerda – a responsável por desferir um golpe mortal no projeto da esquerda. Na realidade, o golpe foi imenso, mas a trajetória da esquerda não termina aí. O colapso do totalitarismo igualitarista é, na realidade, um ponto de partida e dele nasce uma porção de perguntas. Que representou o socialismo de caserna, o socialismo de estilo quase militar, cuja encarnação primeira se deu na União Soviética? Por que razões ele caiu? Em que medida ele representava efetivamente um ideal que se poderia chamar de socialista? E mais: houve outras deformações além daquela que ele implicou? Se houve, que significam e como se explica a emergência delas? Essas múltiplas perguntas põem na ordem do dia a interrogação mais geral: será que não haveria mais futuro para a esquerda depois da queda do Muro, como pretendem os ideólogos mais radicais do sistema dominante?

Estou convencido de que é falsa a tese de que a esquerda foi mortalmente ferida com a queda do Muro. Fico mesmo tentado a afirmar a tese contrária: a de que ela nasce – ou melhor, renasce – justamente com a crise do “comunismo”. Mas é também verdade que, desde essa crise, a esquerda vive uma situação difícil. Há uma ofensiva ideológica e político-prática da direita, no Brasil e no mundo, para a qual a esquerda tem tido dificuldade de encontrar a resposta adequada.

Acresce que o totalitarismo igualitarista não foi a única patologia da esquerda no último século. Houve múltiplos “desvios” em relação ao que se poderia considerar como o encaminhamento original da esquerda. Pode parecer uma banalidade – para alguns, a ideia parecerá, ao contrário, uma heresia –, mas a primeira coisa a fazer é dissociar o projeto da esquerda da maioria dos projetos e políticas que se apresentaram como representativos dela, nos últimos 100 anos, na forma de práticas de Estado ou de partido, ou mesmo enquanto corpo de ideias. Minha hipótese é a de que o ponto de partida de um eventual trabalho de reconstrução tem de ser a consciência de que vivemos no último século, por diferentes razões e sob diferentes formas, em algo assim como um período de alienação radical do projeto de esquerda em relação ao que ela representou na sua origem.

Ouço já a objeção que se fará a essa proposta: para salvar a esquerda, você põe entre parênteses a esquerda realmente existente e se refugia numa outra, que só existe no seu espírito. Entendo o argumento, mas ele falseia a natureza do problema. Aliás, a respeito do argumento, leio um texto em que um articulista – muito embalado com os ares do tempo, como aliás todo direitista-novo – resolve dar uma lição de realismo a uma moça que, embora não acredite em Stálin nem em Fidel Castro, acha entretanto que o socialismo verdadeiro é outra coisa. Aspirando fundo no senso comum conservador do pós-impeachment, o articulista tripudia sobre o irrealismo da moça: ela teria introduzido sub-repticiamente um pretenso socialismo verdadeiro sob a miséria do socialismo real, o único que existiu efetivamente, algo que de resto ela é incapaz de enxergar. E, no entanto, é preciso lembrar: houve a Inquisição, houve o papa Bórgia, a Noite de São Bartolomeu, o reacionarismo de uma fieira de pontífices mais ou menos renomados, a atitude covarde, para dizer o mínimo, do papa Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial, houve e há a homofobia, a oposição ao divórcio – enfim, uma longa história de erros e horrores do cristianismo realmente existente – e, no entanto, seria mesmo tão irrealista dizer que apesar de tudo o cristianismo verdadeiro é outra coisa? No caso da esquerda, bem entendido, não se trata de religião, mas, enquanto ilustração e “epígrafe”, a comparação é útil.

 

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