O povo nas ruas reinvidica mudanças na estrutura social e política do país.

Informações e opiniões diversas sobre o Equador


Não deixem de dar um olhada na seção que recolhe algumas caricaturas que o dono do pedaço vem realizando esporadicamente e que foram publicadas em diversas publicações.


'Fizeram da ocupação democrática do Estado um negócio privado que legitima a volta do neoliberalismo como solução'
Gabriel Brito e Raphael Sanz
Correio da Cidadania, 22 de outubro de 2016

As manifestações pelo Fora Temer começaram vigorosas, mas rapidamente conhecem seu refluxo, o que deve exigir alguma análise para além daquelas que reconfortam círculos tradicionais de militância. De acordo com o cientista político Giuseppe Cocco, entrevistado pelo Correio da Cidadania, trata-se do corolário da “armadilha”  que a esquerda se tornou, caudatária das falsas narrativas, inclusive do “golpe”, do PT, um partido que, em sua visão, atualmente se dedica a desconstruir e desacreditar todas as pautas de resistência fora de sua égide, ao passo que fez de tudo pra inflar a chamada “nova direita” e atraí-la para a rua.

“O governo Temer não é uma reorganização neoliberal em si. É uma reorganização da virada neoliberal que a coalizão Dilma-Temer fez já em novembro de 2014. Qual era a reforma que o PT estava tocando enquanto governo? Nenhuma. E aí vem de novo o neoliberalismo como portador de reformas em meio a uma situação dramática, na qual o fato de não se votarem essas leis pode significar a transformação da falência dos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás etc. em uma falência federal, em que o governo não tem mais grana para pagar aposentadorias, por exemplo. E isso não é uma invenção, mas um desdobramento do fracasso do modelo neodesenvolvimentista”, analisou.

Ao fazer a análise geral da crise, tanto política como econômica, Giuseppe Cocco é implacável com os desígnios tomados pelo PT nos últimos anos, especialmente após 2013, e critica o fato de a Operação Lava Jato, e também um aparelhamento da máquina pública com traços mafiosos e fisiológicos, não ser melhor absorvida em setores da esquerda radical, socialista, autonomista, anticapitalista ou alguma outra variante.

“Toda a esquerda entrou nessa narrativa e mais uma vez evitou a possibilidade de se apropriar em um terreno político de algo que se encontra atualmente no terreno justicialista. E ainda por cima foram gastando toda uma série de munições políticas de maneira totalmente irresponsável. Por exemplo, nas argumentações de que a Lava Jato não respeitaria o Estado de Direito. Isso num país feito o Brasil, onde o Tribunal de Justiça de São Paulo acaba de absolver os PMs do Carandiru. O que o PT fez, e demorou um ano para conseguir, foi desmerecer o movimento. Entregaram a indignação justa para setores da direita que agora estão na rua”, afirmou.

A entrevista completa com Giuseppe Cocco pode ser lida a seguir

 

Correio da Cidadania: Como avalia os primeiros meses do governo Michel Temer?

Giuseppe Cocco: Fazer a avaliação desses primeiros meses de Temer é fácil e difícil ao mesmo tempo. Temos de levar em conta que este governo está começando agora e a única coisa que fez foi levar adiante, com sucesso, a operação de reorganização interna do Executivo e do Legislativo. Agora, após o primeiro turno das eleições municipais, entramos na fase que já estava prevista, a das reformas.

O que podemos dizer desse governo? Em primeiro lugar, é um governo de continuidade. Especialmente em relação à visão que já governava, em particular depois da aventura neodesenvolvimentista que Dilma levou à frente desde quando era ministra da Casa Civil até a reeleição de 2014. Após a reeleição, houve uma virada neoliberal, com as medidas de ajuste fiscal que a própria Dilma promoveu, colocando a Fazenda nas mãos de técnico do Banco Bradesco, o Joaquim Levy.

O governo Temer é a continuidade dessa coalizão, tanto do ponto de vista da aventura neodesenvolvimentista quanto da reorganização da virada neoliberal. Agora, se estiveram juntos no fracasso da aventura neodesenvolvimentista, foram juntos também para a virada neoliberal. O governo Temer não constitui nenhuma ruptura, mas uma continuidade que se apresenta como descontinuidade. E quem ajuda o Temer a se mostrar como uma novidade, quando na realidade ele é mais do mesmo, é a campanha do PT e das linhas auxiliares sobre o tal do golpe. A capacidade do Temer de se apresentar como um fato novo foi amplificada, até agora, pela narrativa do golpe que o PT toca desde quando essa operação começou a ser articulada.

Vemos um reflexo dessa retórica falsa no sem numero de paradoxos das eleições municipais no Rio de Janeiro. Pra começar, temos um nível gigantesco de abstenção e, em seguida, de votos brancos e nulos (ver link ao final da entrevista). Em seguida, é o mundo pelo avesso, duas vezes: Crivella, ministro de Lula e Dilma, se apresenta como ruptura com o governismo e a corrupção, ao passo que Freixo, que sempre fez oposição ao PT e PMDB, se apresentou no primeiro turno como defensor do PT. Em seguida: ao passo que o PSOL defendeu o discurso do PT (e PCdoB) sobre a Lava Jato e as manifestações pelo impeachment como sendo um movimento “das elites que não aguentam mais os pobres viajando de avião” (parece besteira, mas é isso mesmo que se veicula), o Freixo foi ao segundo turno graças ao voto da zona sul (ou seja, da elite), enquanto Crivella contou com o voto popular das zonas norte e oeste. Mesmo tendo ido ao segundo turno, Freixo totalizou muito menos que em 2012 e, quando os militantes foram comemorar na Lapa gritando “fora Temer”, ele despencou ainda mais.

Mas os paradoxos não terminam aí. Hoje, a campanha do Freixo é claramente turbinada pela Globo e pela Veja (e recebeu o apoio até de Eduardo Paes), que estão massacrando o Crivella com os métodos que conhecemos. Ou seja, a “perna midiática” do tal de golpe denunciado por Freixo nos palanques do PT está agora turbinando o segundo turno de Freixo. Não sabemos quem vai ganhar. O que interessa é ver, por um lado, que a representação política está totalmente desnorteada pela multiplicação de sinais trocados e uma gigantesca abstenção e, pelo outro, que a narrativa do golpe é totalmente falsa e apenas serviu ao PT para evitar explicações sobre o estelionato eleitoral e o funcionamento do “consórcio” que ele tinha (e ainda tem) com o PMDB.

Correio da Cidadania: Seria a reorganização neoliberal a grande característica dessa crise econômica atual? O que a diferenciaria de outras crises econômicas já vividas pelo Brasil, nos anos 80 por exemplo?

Giuseppe Cocco: Há algumas diferentes frentes do discurso que precisam ser organizadas. Em primeiro lugar, o governo Temer não é uma reorganização neoliberal em si. É uma reorganização da virada neoliberal que a coalizão Dilma-Temer fez já em novembro de 2014. O que aconteceu ali, e é preciso que sejamos muito claros e lembremos muito bem, é que a Dilma fez literalmente o oposto do que falava que ia fazer durante a campanha eleitoral. Veja: não estou dizendo que ela tenha deixado de cumprir uma ou outra promessa, mas algo ainda pior: ela fez diametralmente o oposto do que pregou. A campanha eleitoral vencedora em 2014 dizia que o Brasil estava bem, não precisava de ajuste e, portanto, Dilma não faria o ajuste. Mas, no dia seguinte à reeleição, começou uma série de cinco aumentos das taxas de juros e corte de despesas.

O estelionato eleitoral não é algo que precisamos lembrar em termos morais, para dizer que Dilma e o PT mentiram. É muito pior. Foi algo totalmente irresponsável, que jogou o país na pior crise da sua história. Por quê? Porque ninguém mais acreditou em Dilma: nem sua base eleitoral, mobilizada por meio de um agressivo marketing eleitoral que prometia não sei qual virada à esquerda, nem – o que é muito pior – o grande capital nacional e multinacional. Dilma fez o pior dos ajustes: ao invés de reconstruir a “confiança” perdida, a destruiu de vez e em todas as suas dimensões: sociais, políticas e econômicas.

Ela cortou tudo, a economia entrou numa recessão brutal – já estava em recessão, mas era de certa forma escondida por objetivos eleitorais – e a grana passou a faltar, apesar dos cortes de gastos, porque a arrecadação despencou.

Tudo terminou num impasse: o ministro do Bradesco saiu e voltou à Fazenda o responsável pela aventura neodesenvolvimentista (o Nelson Barbosa): a confiança despencou ainda mais. O primeiro determinante do impeachment é esse e é, ceteris paribus, muito parecido ao que aconteceu com Collor: ele caiu por causa do confisco e Dilma por causa da depressão.

Sob esse ponto de vista, como dissemos, Temer não constitui nenhuma ruptura, mas uma reorganização interna da coalizão, melhor dizer do “consórcio” de governo. Ironicamente, é a campanha do PT e linhas auxiliares que permite a Temer se apresentar como a ruptura (e a renovação) que ele não é.

A reorganização neoliberal já era dada como horizonte único com a Dilma e isso de duas maneiras: pelo fato de que Dilma e o PT destruíram a brecha democrática de junho de 2013 e pela reeleição que conseguiram, abusando do poder econômico e de um marketing cínico. Uma vez reeleita, Dilma ficou “nua”: sem base social de mobilização e sem confiança empresarial. A multidão passou a manifestar pelo impeachment e os investimentos despencaram de vez.

Correio da Cidadania: Como a PEC 241, bem como outras reformas estruturais defendidas por Temer – como a trabalhista e a previdenciária, ainda que já pautadas durante o governo anterior –, estão inseridas em um contexto maior de crise econômica nacional?

Giuseppe Cocco: É claro que se trata de uma tentativa neoliberal de fazer uma política de austeridade. Tal projeto foi lançado ainda antes do impeachment, pelo PMDB. Chamado de “Ponte para o Futuro”, retomava os temas que o Nelson Barbosa, do planejamento e depois ministro da Fazenda de Dilma, já ventilava. Ou seja, os três temas que estão no debate das reformas neoliberais: gastos e equilíbrio do orçamento, a previdência e terceirização envolvida nas propostas trabalhistas. O governo Temer tem como proposta retomar tal agenda e praticá-la. A grande crítica a Dilma não era a de ter outro projeto, como defendido em sua campanha, mas de não ter competência para levar a virada neoliberal adiante.

Temer começa pelo começo. Essas três reformas vão no sentido de restabelecer a tal da confiança sem a qual vamos ladeira abaixo. Mesmo que tenhamos uma postura crítica e pensemos que a austeridade não vai resolver nada, a questão da confiança – e de como reconquistá-la – tem sim de ser nossa preocupação: o problema é que a confiança é hoje vista tão somente em uma perspectiva neoliberal e isso é três vezes responsabilidade da Dilma e do PT: porque destruíram as mobilizações de rua e cooptaram vergonhosamente o que sobrou; levaram a macroeconomia para o buraco; e, enfim, porque depois disso tudo afirmaram o ajuste como pauta.

Como é que eles querem reconquistar a confiança no país? Do mesmo jeito como queriam fazer antes o crescimento neodesenvolvimentista. Ou seja, tudo decidido por cima. Do mesmo jeito que as megabarragens e estádios para os empreiteiros, as refinarias da Petrobrás que nunca entrarão em função, os navios-sonda para os amigos dos amigos, os subsídios à indústria automobilística, as coalizões mafiosas nos municípios onde governam com as empresas de ônibus, e por aí vai.

Tudo foi feito por cima, e por cima é feito o novo arcabouço de reformas, que deveria ter como objetivo a retomada dos investimentos. O governo Temer articula o longo com o curto prazo nessas reformas e corre o risco de não ter tanto sucesso.

Por sua vez, o PT, desde junho de 2013, não para de lançar narrativas e campanhas falsas, mas que conseguem levar toda a esquerda junto. Inclusive e sobretudo o MTST. No caso do PEC faz a mesma coisa: é a PEC do fim do mundo, quer dizer, o fim do PT é o fim do mundo. Acontece que a situação é o contrário: o PT determinou a crise (o fim do mundo) e nos deixa o Temer como legado. As campanhas contra o PEC falam do fim do mundo mas não dizem nada da situação em que estamos: para ilustrar, vemos uma situação que em Ipanema fecharam 100 lojas nos últimos meses, o bairro onde tem mais grana no Rio. Grandes Shoppings Centers da Barra da Tijuca, outra região endinheirada, estão com taxas de atividade caindo. Lojas fechando, desemprego aumentando, guerra generalizada, e a favela desempregada no meio da falência do processo de “pacificação”. Ou seja, a falência de um Estado que não paga meio milhão de funcionários que todo mês não sabem quando e como vão receber.

No Brasil, como um todo, são 100.000 lojas que fecharam. Estamos terminando o segundo ano seguido de profunda recessão e o que a “esquerda” (responsável pela catástrofe) opõe à PEC? Um raciocínio contábil e de princípio: “você não pode bloquear investimentos para os próximos 20 anos e jogar fora o dinheiro da saúde e da educação”. Mas não é assim, é bem pior. O investimento já está despencando e a arrecadação derretendo. Aqui e agora, o que fazer? É na esteira do vazio que o PT fez, preocupado apenas em salvar-se diante da Lava Jato, que vem a PEC dos gastos e as outras reformas. Não haverá resistência à altura até que não nos livremos dessas mistificações.

Correio da Cidadania: O que comenta do fracasso petista que, como colocado pelo senhor, hoje atropela o movimento Fora Temer e alguns movimentos contra os chamados “pacotes de maldades”? E como vê essa disputa de hegemonia, muito calcada na ideia de um “mal menor” que conseguiria “barrar a direita”?

Giuseppe Cocco: Eles desejam que o Bolsonaro continue na rua e no Congresso falando suas bobagens para poderem legitimar a roubalheira como método de governo. Ou seja, preferem antagonizar com uma direita boçal do que disputar hegemonia com uma esquerda mais radicalizada democraticamente. Foi o que fizeram ao descaracterizar junho de 2013 e abrirem um vazio que acabou preenchido por setores dessa nova direita que aplaude o Alexandre Frota fazendo campanha pela educação.

É o que estamos vendo na Lava Jato, e não tem solução. O Fora Temer sem o Fora Dilma será derrotado, porque é falso. E está sendo derrotado pelo próprio PT. O partido não quer um Fora Temer de verdade, mas um movimento Fora Temer para chamar de seu. Como a movimentação do MTST que, sinto muito, se mostrou uma movimentação totalmente pelega e instrumentalizada, que, aliás, apareceu depois de junho de 2013 para encher as ruas de mobilizações que podiam ser governadas e esvaziadas como o governo e os governistas bem quisessem. E o MTST se prestou a ser uma invenção do governo. No âmbito dos jovens, há uma forte simpatia pelos pobres e sem tetos, mas o MTST é exatamente um porta-voz do governo, inclusive mostrando os mecanismos de organização interna que permitem apenas um cara falar pelo movimento. Começou exatamente para controlar e domesticar as ruas rumo àquela Copa das Copas quando o PT dizia que “não vai ter protesto”. E tudo que veio depois disso continua a ser chantageado.

Logo depois, o Freixo foi dizer, após o primeiro turno, que era contra o golpe. Perdeu a eleição. Apesar de o Crivella ser mais lulista em sua história do que o Freixo, consegue se apresentar mais como ruptura do que o psolista. O Fora Temer é derrotado e o verdadeiro desafio, em termos discursivos, é manter-se firme, mesmo que minoritários na esquerda, mas majoritário na sociedade, na dimensão de que o Fora Temer é a continuidade do Fora Dilma e do Fora Lula – e não o contrário, que é o “Volta Querida”. E exigir do PT que se explique sobre o que fez nos últimos 14 anos é outra obrigação de quem se presta a construir uma alternativa democrática.

É importante dizer que não é a partir de uma afirmação intelectual e teórica que vamos fazer isso. Como vimos em junho de 2013, apenas movimentos concretos serão capazes de fazê-lo. Quando tais movimentos vão poder aparecer não se sabe, mas temos alguns movimentos de ocupações de escolas que podem chegar em algum lugar.

Correio da Cidadania: Muitos pensadores, entre eles o Paulo Arantes, têm afirmado que vamos demorar cerca de 20 anos para reconstruir uma alternativa. Como avalia a colocação?

Giuseppe Cocco: Convidei o Paulo Arantes para uma palestra e ele falou isso. Uma palestra cujo título sugerimos: “Depois de junho a paz será total”. Quando o Paulo Arantes critica a noção de golpe, ele diz exatamente que não houve golpe porque não houve ruptura, e sim continuidade a partir de reorganização interna. Na minha opinião, não faz muita diferença afirmar se vai durar 10 ou 20 anos a reconstrução de uma alternativa – o mesmo prazo da PEC241, 20 anos. Não sei se estamos presos em um horizonte tão ruim e não adianta pensar nesses termos. Na realidade, quando haverá uma inflexão não seremos nós que vamos dizer.

Não sabemos mais como é a classe trabalhadora, dadas as novas dinâmicas no mundo do trabalho, mas não vejo dinâmicas de organização de movimentos sociais e sintomas de resistência que indiquem um caminho alternativo. O que vejo é um deserto construído sistematicamente desde junho de 2013 pelo governismo, que foi uma máquina de exterminar qualquer alternativa. Uma restauração que chegou ao seu auge com a reeleição de Dilma Rousseff.

Temos que analisar bem a dimensão da crise. Há uma tendência de muitos intelectuais (não acho que seja o caso do Paulo Arantes) e mesmo os que na esquerda não aderiram completamente à narrativa petista do golpe e do PT, tratarem o partido como vítima de um complô, como se não participasse do próprio complô – como se de repente eles não fossem mais os operadores do grande capital, que por sua vez seria uma coisa metafísica, não mais a Odebrecht, a OAS, a Andrade Gutierrez, nem o Eike Batista, com quem faziam complôs. Eles são vítimas agora, coitados.

A gravidade da crise tem uma dupla dimensão. Em nível global temos o desdobramento da crise de 2007 e 2008, não há crescimento, há crise de modelo e da democracia, sobretudo nas eleições dos EUA, que são assustadoras. E daqui a pouco virão as eleições da França, com a extrema direita no segundo turno, além do Brexit no Reino Unido. Vemos um desmoronamento da esquerda que deixa um espaço livre para a proposta de uma nova direita. Que é exatamente o que o PT quer e quis aqui no Brasil.

E aqui no Brasil nós temos não só a crise global, mas também uma crise endógena que parte de uma aventura em específico. Ou seja, a tentativa que fizeram de maneira acelerada após a primeira eleição da Dilma, entre 2011 e 2012, de uma saída anticíclica neodesenvolvimentista. Nesse momento e sob este ponto de vista, só a Venezuela está pior do que o Brasil. Quer dizer, o Brasil não está lidando com a estagnação, com a falta de modelo e com a economia internacional deprimida, mas o Brasil está deprimido por si só em termos econômicos e em organização do executivo.

Ao contrário do que o PT falou, a Lava Jato não está sob controle, ela está tocando toda a casta política e ainda não vimos nada do que vem aí. E mais uma vez poderíamos ter um terreno de apropriação democrática dessa operação judiciária, que não ficasse apenas no terreno insuficiente da superação do justicialismo, o que mais uma vez não ocorreu, porque falar de corrupção virou um tema moralista. Cobrar o PT sobre o porquê de governar para as grandes empreiteiras, justificando assim esses grandes investimentos, não se faz, pois é “moralismo”, já que a cor da bandeira da esquerda é mais importante do que qualquer outra coisa.

Portanto, acho que a crise que vivemos no Brasil é um fiasco específico do modelo neodesenvolvimentista, que se sobrepõe e agrava o quadro global da crise. E a responsabilidade é da esquerda, que tomou as rédeas da hegemonização do poder. Ao passo que tomou as rédeas, não quer assumir a responsabilidade, pois não para de lançar campanhas falsas, como essa da “PEC do fim do mundo”.

Correio da Cidadania: O que pensa da Lava Jato e qual deveria ser a postura de setores que se intitulam progressistas diante dela? Vê semelhanças entre a Lava Jato e a Operação Mãos Limpas italiana?

Giuseppe Cocco: A Lava Jato tem uma dinâmica própria do ponto de vista técnico. Tem uma inspiração na Operação Mãos Limpas, feita na Itália, mas tem sua característica própria. O que o PT fez diante da Lava Jato? Disse que era um complô contra ele próprio e seletiva, ou seja, pegava só o PT e não era nada além de um instrumento dos tucanos.

Toda a esquerda entrou nessa narrativa e mais uma vez a esquerda evitou a possibilidade de se apropriar em um terreno político de algo que se encontra atualmente no terreno justicialista. E ainda por cima foram gastando toda uma série de munições políticas de maneira totalmente irresponsável. Por exemplo, as argumentações que colocam, de que a Lava Jato não respeitaria o Estado de Direito. Isso num país feito o Brasil, onde o Tribunal de Justiça de São Paulo acaba de absolver os PMs do Carandiru. Ou onde o governador petista da Bahia eleito em 2014 dizia que os policiais que matavam os jovens da periferia de Salvador eram como jogadores de futebol gritando “que saíam na cara do gol e precisavam decidir”. Naquele caso, da chacina do Cabula, disse ter se tratado de um “gol de placa”.

Onde que existe Estado de Direito no Brasil? Estamos mais uma vez em uma dinâmica de narizes trocados. A esquerda que abraçou a narrativa petista não percebe o quanto ela própria é seletiva nos conceitos, e acusa a Lava Jato de ser assim.

A esquerda é uma coisa curiosa. Aplaude quando o Assange ou o Snowden promovem a transparência do funcionamento secreto e sigiloso do poder dos EUA, onde o poder formalmente democrático aparece com suas artimanhas – para usar termos que a Dilma usava. Mas quando é a justiça que pela primeira vez não está prendendo e matando pobres no Brasil, mas indo atrás de políticos e empresários, usa o discurso da garantia constitucional, ao invés de dizer “queremos mais, queremos transparência total e que isso se transforme em abertura de espaços democráticos e não apenas em discursos justicialistas que nunca vão resolver nada”.

Outro dia o ministro do STF deu uma entrevista dizendo que não vão ser os tribunais que irão preencher o vazio democrático. Pois a esquerda foi construindo esse vazio, ajudada pela “extrema-esquerda” ou “esquerda de oposição” que, por sua vez, decidiu se suicidar junto. Uma esquerda que sempre fez oposição, mesmo quando não devia, agora decidiu ir para o mesmo buraco.

Correio da Cidadania: Dentro de tal contexto, acredita na eclosão de movimentos de resistência aos projetos políticos dominantes no Congresso? Como as manifestações de junho, e talvez seu espírito, poderiam se relacionar a este novo momento?

Giuseppe Cocco: A Lava Jato está mostrando que havia um consórcio, com PT e PMDB articulando os interesses do grande capital nacional e multinacional. Em torno a isso, houve algumas pequenas políticas, sobretudo na primeira fase do governo Lula, que foram inovadoras: valorização do salário mínimo, ações afirmativas em universidades e eventualmente políticas culturais e de meio ambiente do Gilberto Gil e Marina Silva, tudo ainda na primeira fase. Mas eram políticas que estavam ali por acaso. Não por acaso, quando a Dilma chegou ao poder desapareceram todas as políticas positivas e só sobrou a cara autoritária e neodesenvolvimentista.

A Lava Jato é a consequência. Tem como base de legitimação a revolta de junho de 2013 e seus desdobramentos sucessivos e, como mecanismo de funcionamento, conta com uma nova geração de juízes jovens que acreditam no que fazem. É importante nos atermos ao fato de que socialmente, e não por acaso, as manifestações mais importantes pelo impeachment estavam em São Paulo, capital produtiva do país, onde está um número considerável de pequenos e médios empreendedores que ficavam de fora desse esquema de roubo de recursos públicos.

Do mesmo jeito que deveríamos juntar o Fora Temer com o Fora Dilma – o que infelizmente é tarde demais -, deveríamos ter a capacidade de dizer que, a partir do que a Lava Jato está mostrando, sem a radicalização democrática a campanha eleitoral é uma mentira. O grande crime do PT foi, diante de junho, ter usado toda a força do Estado contra a sociedade.

Não acredito em “20 anos de reconstrução de uma alternativa”, mas entendo a visão pessimista que o Paulo Arantes faz, a partir de dois determinantes que devemos levar em conta. A capacidade que o PT tem, especialmente em São Paulo, de esvaziar as pautas. Aqui no Rio, apesar de toda a esquerda organizada, incluindo o PSOL, ter decidido “virar petista”, não funciona do mesmo jeito. Em São Paulo, o PT tem uma capacidade bastante significativa de destruir as pautas autônomas. A declaração do Paulo tem essa influência e ao mesmo tempo um papel importante de enfatizar o vazio que o PT construiu. Por isso defendo, desde a campanha eleitoral de 2014, que enquanto não conseguirmos fazer o luto do PT e enterrar esse cadáver vamos ser oprimidos por ele, do ponto de vista da resistência.

Correio da Cidadania: Os movimentos de 2013 tiveram influência na debacle do petismo? Você faz relação entre esse momento e as manifestações tingidas de verde e amarelo que marcaram 2015 e 2016?

Giuseppe Cocco: Junho de 2013 foi o decreto do fim do consórcio de poder que agora sabemos o que realmente era. Não apenas uma coalizão eleitoral, mas um consórcio com o qual ligamos operadores, lobistas etc., que decidiam o que se fazia e o que não se fazia no Brasil. As revoltas de junho de 2013 decretaram o fim desse consórcio de poder.

Agora, junho não foi homogêneo no país todo e pelo visto em São Paulo já tinha uma característica explicitamente antigovernista e antipetista, que no Rio não tinha. Mas quando o movimento no Rio de Janeiro, e em especial em 17 e 20 de junho de 2013, chegou a mobilizar milhões de pessoas, era um movimento contra toda a representação. Só que ao mesmo tempo era atravessado por um sem número de reivindicações e por um sentimento destituinte. Nessa época o movimento não era hegemonizado por ninguém.

O Rio foi se radicalizando em outubro do mesmo ano, com a greve dos professores, a colocar a ocupação democrática da metrópole em prática. O que o PT fez, e demorou um ano para conseguir, foi desmerecer o movimento. E desejar que ele fosse de direita, verde e amarelo. Foi desconstruindo o movimento e criminalizando setores mais radicais. Basta lembrar a Marilena Chauí dizendo para a PM do Rio que os black blocs eram fascistas. Víamos petistas escrevendo isso nos jornais. Além do tema dos “coxinhas”, exatamente a partir dos trajes verde e amarelo e do movimento sem objetivos e sem organicidade, ao passo que o PT mantinha sua organicidade com o Marcelo Odebrecht e com o Eike Batista.

O movimento aqui no Rio, várias vezes, jogou pedras no prédio do Eike Batista. Antecipou a falência do Eike Batista. Quem foi atacando o movimento para endireitá-lo foi o governismo, usando uma máquina incrível, que chegou ao máximo nível de sucesso com a repressão durante a Copa e, em segundo lugar, com o sucesso da mobilização do voto crítico na eleição de 2014. Assim, o movimento de rua seguiu, mas sem a esquerda mais radical, e se tornou verde e amarelo, particularmente em São Paulo.

Ou seja, quem desejou que o movimento saísse de uma indignação justa e fosse na direção da nova direita foi o governismo, para poder criminalizar e estigmatizar o movimento. E de maneira completamente irresponsável, porque queriam no fim das contas salvar a própria pele, no sentido de não irem pra cadeia. Ganharam aquela eleição mentindo descaradamente. Assim, entregaram a indignação justa para setores da direita que agora estão na rua.

A esquerda não alinhada ao governismo foi reprimida, chantageada e acabou saindo das ruas, deixando o espaço vazio para o fascista verde e amarelo. Enquanto isso, o PT passou da exaltação do verde e amarelo durante a Copa para a estigmatização do mesmo logo depois. São todas manipulações do PT. Concordo que a grande mídia seja manipuladora, mas o PT em termos de governismo também se transformou em uma máquina de manipulação sem fim.

O PT não conseguiu, naturalmente, enfrentar as forças que se constituíram contra ele, porque eram multitudinárias e representam também setores da elite que precisam fazer funcionar a economia e não iam se sacrificar por causa dos belos olhos da Dilma. Em segundo lugar, não teve êxito porque a indignação continuou a ir para a rua, nas manifestações de 15 de março de 2015, 20 de abril do mesmo ano, os panelaços etc.. O que foi terrível é que a esquerda radical e a esquerda autônoma saíram das manifestações, deixando os “bolsonarinhos” da vida livres para hegemonizar.

Correio da Cidadania: Em outra entrevista, você afirmou que a nossa esquerda, atualmente, não passa de uma armadilha, uma espécie de abstração que nada acrescenta às necessidades de nosso tempo. Há uma esquerda possível? Como seria?

Giuseppe Cocco: Eu disse que o nível desse esvaziamento da noção de esquerda quase nos leva a ter que esquecê-la, se queremos construir a resistência. Não acho que o problema proposto seja reconstruir a esquerda, mas procurar onde é a resistência, que existe e faz funcionar a sociedade, e pode se tornar constituinte, se recompor e recompor toda sua dinâmica micropolítica e microssocial numa indignação geral. Esse deveria ser o nome da esquerda, mas a esquerda virou um nome de manipulação, de retórica e de interesses ou corporativos ou partidários – e corruptos. A armadilha é exatamente essa. Todo mundo passou a defender a ideia abstrata de esquerda, perdendo de vista que a indignação pode ir por outros campos.

Como vemos no caso do Crivella, o espaço que os evangélicos ocuparam entre os pobres diante da incapacidade da Igreja Católica e dos movimentos populares de fazer um trabalho de base decente. Quer dizer, vemos o pessoal da esquerda enchendo a boca para falar do MTST enquanto em São Paulo, mesmo que não ganhe, sempre temos o fenômeno do Russomano, um candidato popular à prefeitura, a funcionar por canais diferentes da esquerda.

Não acho que seja o caso de reinventar a esquerda. O nome da esquerda deveria ser feito através das dinâmicas micropolíticas e de recomposição das microrresistências, sem as quais a sociedade não funciona. Deveria ser algo mais parecido com “a sociedade contra o Estado”. Mas a esquerda virou o Estado, e pior, um Estado que de tão falido decidiu dar um chute na bunda do que sobrou da esquerda, a fim de seguir no poder. Pois o que sobrou da esquerda virou um empecilho para a esquerda governista continuar o mesmo projeto que vinha tocando junto do seu consórcio.

Essa esquerda como resistência já existe. Sempre olho para as ocupações das escolas como um exemplo, e mesmo elas tendo sido instrumentalizadas ainda têm uma autonomia considerável. Toda mobilização tem algum nível de ambiguidade. As mobilizações que partem dos estudantes secundaristas e da periferia tiveram suas candidaturas alternativas no último processo eleitoral. Mas de fato nós estamos em uma situação de vazio e a campanha eleitoral o mostrou. Primeiro com a pujança desses candidatos que vêm das igrejas evangélicas e depois, também, a das abstenções.

Vemos o Rio de Janeiro, que enfim conseguiu derrotar o PMDB, velho aliado do PT, em uma grande cidade popular entregue há mais de duas décadas pela logica mafiosa do PT aos piores interesses corruptos. Isso se traduz em bizarrices como a militância gritando “golpe” e o vice-prefeito do PT continuando junto do Paes. Portanto, se o pessoal continuar gritando palavras de ordem falsas, nunca teremos a capacidade de enfrentar nada. É o desafio proposto.

Voltando à PEC 241, o que podemos propor em termos de mobilização para restituir uma confiança e uma dinâmica que mobilize a sociedade para que os direitos sejam efetivos? Estamos sempre defendendo uma figura fraca do Estado, e depois de 14 anos de poder nos quais o que era a esquerda, o PT, fez do Estado um negócio privado.

O dramático da Lava Jato não é nem o pessoal ter enriquecido ilegalmente. Essa miséria humana sempre fez parte da dimensão do materialismo e precisa ser combatida. O mais dramático é que fizeram da ocupação democrática do Estado um negócio privado que, além de ter destruído a economia do país, legitima a volta do neoliberalismo como solução. Portanto, o que a Lava Jato está escancarando, junto com o contexto de crise, é a condição do PT, que é a condição da democracia em si. Não há corrupção porque o Lula tem um tríplex, mas o fato de vermos que o Lula tinha 80% de aprovação e usou isso para faturar a partir da Odebrecht e do Eike Batista, ao invés de radicalizar as reformas. E assim legitimou a volta do neoliberalismo.

O neoliberalismo não veio depois da ditadura, no período de democratização? Pois é, veio com a legitimação de que a ditadura tinha ocupado o Estado como bem entendeu. E de novo o neoliberalismo vem como solução diante de uma ocupação mafiosa do Estado e coloca-se como solução.

Correio da Cidadania: Já que você fala da radicalização da democracia, o que pensa de modelos como o Occupy Wall Street, os Indignados espanhóis e coalizões político-parlamentares como o Podemos ou o Syriza?

Giuseppe Cocco: O 15M, na Espanha, foi um ciclo e o Podemos é um desdobramento deste ciclo. Não são a mesma coisa. Foi um desdobramento ambíguo. Parecia, no caso das eleições municipais, se qualificar pela atitude de uma proposta neopartidária muito inspirada no chavismo e na problemática do peronismo do Delacroix; um significante vazio com uma reformulação populista de esquerda, que inicialmente parecia funcionar e chegou a ganhar em Barcelona e Madrid, atravessada por dinâmicas horizontais.

No caso de Barcelona, sobretudo com a Ada Colau, é a expressão do movimento de resistência dos hipotecados, que estavam perdendo as suas moradias. E isso também acabou. Na Europa temos as experiências do Podemos na Espanha e do Movimento Cinco Estrelas na Itália, ainda mais descolado das mobilizações democráticas de ruas, mas que eleitoralmente mobiliza o mesmo público, a mesma cidadania. Eles representam a tentativa de preencher o vazio. Temos de estudá-los de perto, pois são uma tentativa e estão num impasse.

O Occupy Wall Street terminou e nos EUA tivemos a vitalidade da campanha do Bernie Sanders, que foi homologada pela posição de menos pior em relação à Hillary Clinton, graças ainda à subida desse monstro fascista que é Donald Trump. Ao mesmo tempo, o Occupy aparece como a resistência do Black Live Matters, dos negros norte-americanos contra o racismo, a mesma coisa que aparece aqui na campanha contra o genocídio do povo negro e periférico.

Agora, no Brasil não tem nada e se olharmos para a América do Sul vemos todo um ciclo de governos progressistas esgotado. No Brasil, o único espaço que tinha uma dinâmica eleitoral era o da Marina Silva e, ao mesmo tempo, é parecido e diferente. O Podemos é diferente do Cinco Estrelas, que é diferente do Syriza, que é diferente da Marina Silva. Agora, a presença da Marina na campanha eleitoral de outubro foi um elemento importante da explicitação das mentiras do PT, pelo fato de a Marina ter acabado candidata à presidência por conta do acidente com o Eduardo Campos, do qual era vice. Isso obrigou o PT a uma campanha ainda mais mentirosa do que tinha previsto, porque estava aterrorizado pelo segundo turno contra ela, levando o partido a armar sua própria armadilha.

Digo isto sobre aquele período em si, porque depois a Marina não se confirmou como uma terceira via, e estou falando sob um ponto de vista eleitoral, não de movimentos de rua.

O que temos é o vazio. Não temos mais nada desde junho. Junho de 2013, inclusive, foi um milagre. Isso porque no Brasil os pobres são massacrados todos os dias, não têm para onde fugir. Temos as ocupações das escolas, mas todas as movimentações legítimas que temos visto são atravessadas por temáticas falsas. Por enquanto, não sabemos de onde vai vir alguma coisa – e não virá de recomposições e frentes, do pessoal político do passado, mas da capacidade que as pessoas, ativistas e singularidades dos cidadãos, vão continuar a pensar sobre formas de organização autônoma que vão se recompor e estão trabalhando para isso.

Em junho de 2013 nunca poderíamos prever que haveria uma recomposição a partir da campanha contra os 20 centavos. Um movimento mais amplo foi recomposto ali e queria mais do que isso. Agora estamos na fase da restauração, se vai durar 20 anos eu não sei, mas o que sabemos é que ninguém sabe para onde vai. Veremos até quando as campanhas vão conseguir se multiplicar e se a recomposição de uma resistência, de uma alternativa democrática, de outro tipo de mobilização e transformação dos valores, vai vingar.

Correio da Cidadania: O que vislumbra para o país até 2018, sob o governo Temer e seus sustentáculos políticos?

Giuseppe Cocco: Nesta semana estão sendo chamadas manifestações contra os pacotes de reformas do governo e a partir desses dias vamos poder ver se vão além de uma reciclagem do campo governista e linhas auxiliares, contra a PEC 241. Acho que ninguém sabe o que vai acontecer até 2018. Quando a gente faz previsões, na verdade não sabemos o que vai acontecer. Inclusive as eleições mostraram essas dinâmicas tectônicas.

Aqui no Rio e em São Paulo também. Os cenários são diferentes. Podemos dizer que o sucesso do Doria em São Paulo indica uma volta dos tucanos, Podemos dizer que se o Temer conseguir emplacar as reformas, a economia esboçar algum crescimento e o emprego voltar, ele mesmo poderia se apresentar na próxima eleição, o que seria o fim da picada, pois ele é a continuação do que foi montado pelo PT. Ou essas reformas que ele está querendo fazer vão encontrar uma resistência importante que vá inventar novos terrenos. Não sabemos.

Teoricamente, o Temer não tem legitimidade nem a base social para fazer reformas de tamanho porte. Mas a legitimidade lhe é dada, paradoxalmente, pelo tamanho da crise e do discurso do golpe, de que ele seria uma mudança diante do desastre – ao contrário do que pensa a bolha dos estudantes da USP e da PUC de São Paulo e seus professores, pensa o povo no geral ao não receber o salário, estar desempregado e sendo assaltado todo dia por uma violência generalizada na qual o Estado é um dos principais atores. É com isso que o pessoal lida, e não com a demagogia dessas bolhas de classe média que vincula o discurso absurdo de que haveria um golpe porque a elite não aguentava mais ver pobre em aeroporto. A mudança interna é porque a Gol está quebrada, a Oi está quebrada, as lojas estão fechando, é isto que está acontecendo e a esquerda não é mais materialista, não está pensando a crise, mas vivendo nas nuvens de uma zona de conforto completamente desligada da realidade.

Gabriel Brito é editor-adjunto do Correio da Cidadania; Raphael Sanz é jornalista